O sorriso que te abriga me consome enquanto tento me desvencilhar destes teus olhos que podem até me cegar, me compenetrar e tratar de me ferir inteiramente. Estou me apaixonando assim, depois que me iludo com olhar, que lhes toco a pele quente e que seus sorrisos são sutis. Como sempre, sem beirar nada diferente sei que estou me iludindo. Sei, pois já começo a apresentar esses sintomas idiotas. A tal da saudade, o tal do ciúme. Estou me apossando do que não é meu. Mas, menino, a culpa é tua e destes teus olhos, desta tua voz e desse teu cheiro que me deixa entorpecido. É esse teu ombro que minha cabeça clama e esse modo como você se move vagamente. A culpa é inteiramente sua.
Sabe esse jeito que você sorri, esse teu olhar que me suspira uma vontade de um amor? Ele me encanta e me deixa sutilmente sem palavras. Enquanto danço me permito olhar nos teus olhos. Sinto o desejo compulsivo de te domar em mim, te sussurrar desejos e profundas doses das minhas poesias mal feitas nos teus ouvidos. Então domo a mim, ao meu dom de tentar me iludir com quaisquer que seja esses olhares pecaminosos e cheios de uma provocação aguda, e que por sinal você possui. Entretanto exijo de mim capacidade de decifrar as vozes & os sabores, o toque & o olhar, a cumplicidade & a veracidade para não desentender nada, para poder não doer profundamente. Sabe, desejos e sonhos são me permitidos com poucos e nem me pergunte o motivo pelo qual ainda me permito sonhar contigo. Acredito que seja… por me encantar menina, por me encantar.
Sentir estes meus lábios tocarem os teus enquanto meus devaneios se vão e nenhum deles é confirmado – assim como este dos meus lábios nos teus agora. Enquanto me perco te vejo de forma que não existes. Crio-te encantos e feitiços sem nem mesmo perceber. Encanto-me e não me domo, mas te crio e assim me deixo navegar sem rumo. Sem jogar a ancora, Sem marcar território. Apenas perdendo-me. Entorpecente é este meu veneno que me faz acreditar nas ilusões compulsivas. Uma mistura de cheiros e sabores. Uma mistura de mim e você. E nisto me forço a voltar para a realidade, entretanto dói, muito melhor é o sabor do veneno que escorre pelos meus lábios e me corre pela veia.
“Me fala adeus, porque não vou voltar.” Trancou-se do mundo e jogou a chave pela janela sem pensar duas vezes, sem se importar em perder aquele jeito bonito e simples de sorrir sem ter medo e mexer no cabelo. Trancou-se e deixou a caixa de lápis de cor do lado de fora, deixou a caneta e o papel numa pasta dentro do armário junto com a imaginação e vontade de voar. Nem sei da onde essa ideia surgiu, da onde tirou coragem e quando começou sacudir os ossos pra jogar fora a poeira. Quando dei por mim ela e seus olhos pretos já estavam longe e um atestado de óbito em mãos. Se trancou no quarto com as pernas finas que eram finas, mas eram suas; com os olhos vermelhos que ainda vermelhos, eram seus; com o pulso pálido que mesmo pálido guardava seu sangue. Se trancou com a tristeza que fez sua, mas, não lhe pertencia. Fora visto que seu coração parou de bater, sua alma entorpeceu amarga a boiar no mar de morfina. Fingir que não ligava era morfina, beber era morfina, fumar era morfina. E no fim de tudo, trancada no quarto reclamando da lua estar perto demais e querendo cometer suicídio pra ver na lapide: “A estrela cadente” percebeu que a morfina, era placebo.
Ando pensando numa desesperada tentativa eficaz de recomeçar ou arrumar tudo. Está cada vez mais insuportável conviver com essa dualidade interna e temo por talvez não conseguir resistir a isso por muito tempo. O desgaste anda sendo meu único dever consequencial. Forço a criação de uma espécie de combustível pras minhas ações, que anula a autenticidade dos meus atos. Tento me justificar com teorias desconexas. A minha incredulidade nem permite mais que eu deixe a sorte preencher o vazio que me consome.
Todo esse conflito interior é como se fosse uma resistente e contínua corda. Sinto-me confusa por não saber lidar com meus sentimentos, achava que estava pronta, mas cada amor, paixão, apego, tem sua exclusividade, cada um é um jogo único, com regras diferentes e eu ao menos disponho das peças para jogá-lo: Essa é a ponta da corda, que ao decorrer do tempo vai enrolando-se vagarosamente em torno de um pescoço para enforcar. O meu.
Direcionei minha visão pra um lugar muito alto, onde o sol impede-me conseguir enxergar algo. “E já que ser feliz não é tão comum, vicie-me na mágoa.” Acomodei-me na expectativa de não conseguir ser nada além de uma eterna perdedora nesse tal jogo.
j.r
E por hoje adoraria me embriagar. Está vida tem se mostrado tão cansativa que nem mesmo sei o que quero. Estou almejando grandes amores nesta minha mente cheia de ilusões. Sinto frio. Ontem pela noite imaginei ter alguém aqui pra me acompanhar nos drinks, para me beijar com lábios cheios de nicotina. Foi logo ontem quando olhava pela janela que vi aquela estrela cadente rolar pelo manto azulado. Desejei sorte, sorte a mim, mas essa coisa de desejar tem me tornado fraco.
Vocês vão passando tão bem nestas vidas que fico perdido. Sei que acreditar em filmes é bobagem, tal como acreditar em um romance, no amor puro. Toda essa coisa é livremente ilusões daqueles que ainda se abrem para amar. Que querem tornar as ilusões realidade. Pessoas assim como eu que não sei mais por onde andar, que não sabem mais nem se quer o que escrever por ter esquecido o que é apaixonar-se.
— Garçom, mais um drink!
Ei menino, senta aqui. Vamos conversar. Vamos colocar estes pontos nos i e até nos jotas ou sei lá o que quer que precise mais de pontos. Senta aqui e vamos misturar nossas cores e nossos gostos. Vamos nos enrolar em sabores e naqueles cheiros que tanto me enfeitiçam. Vamos menino nos afogar em nossos lábios e naufragar em nossas almas apenas, assim, admirando nossos olhos atentamente. E não deixa te desviarem, não deixe que eles te façam enlouquecer. Deixe-os falar, mas não deixe que suas vozes ecoem de forma alguma pelas paredes de ti. Vem menino, senta aqui e chora.
Te olho assim, meio preocupado e meio tonto. Te olho mesmo no fundo pois amo essa coisa de olhares que se afundam e bocas que se afogam. Vai tudo assim me inspirando e me deixando com o coração tão acelerado que mal consigo largar estes meus suspiros cheios de vontade de ti. E teus lábios se comprimem, e eu vejo nosso desejo mutuo e largo de lado este meu orgulho besta. Te beijo assim, de inesperado – Não devíamos fazer isto – me sussurras ao tentar abrir os olhos. É engraçado, querido, te ver assim perdido entre acreditar no fato de que é muito, mas muito, amor para pouco nós e querer nunca mais deixar teus lábios tocarem os meus.



